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UNIVERSIDADE  FEDERAL  DO  MARANHÃO
DEPARTAMENTO  DE  FILOSOFIA

A questão do objeto na filosofia e na psicanálise

Thaís Moraes Correia
Psicanalista, Profª Auxiliar do Dep. de Filosofia   

RESUMO

A teoria do desejo, inconsciente, tal como Lacan a propõe naquilo a que chama "discurso analítico", desemboca numa teoria do "desejo inconsciente". Daí a questão fundamental deste trabalho será a de abordar o inconsciente como objeto da Psicanálise, em ruptura com o sujeito da consciência da Filosofia clássica.  


INCONSCIENTE - DESEJO - FANTASMA

 
Com o primado conferido à individualidade do homem na Ciência Moderna, cuja característica é o antropocentrismo, este homem se torna o centro dos valores e do conhecimento. O nascimento da Ciência Moderna coloca a Filosofia em situação periclitante, já que põe em questão a possibilidade mesma de uma ciência unitária do homem.

Sabemos que até o século XIX o destino das Ciências humanas estava vinculado ao destino da Filosofia. Elas eram conhecidas como ramos da antropologia filosófica que tinha a pretensão de estudar o homem em sua totalidade.

Uma nova mudança ocorre na antropologia contemporânea, nascida com o evolucionismo, o marxismo e a psicanálise, pois o sujeito cognoscente foi descentralizado de si mesmo. A partir daí, inicia-se então um intenso questionamento acerca de quem é esse homem que constitui realmente o objeto de uma filosofia do homem. O homem das ciências biológicas, sociológicas, psicológicas, históricas? Segundo HILTON JAPIASSÚ, a filosofia encontra-se diante do seguinte dilema: "ou ela deverá falar de um homem ideal, que não é objeto da ciência, ou deverá desaparecer por falta de objeto" (JAPIASSÚ, 1977: p.35).

FREUD escreveu que "no transcorrer da modernidade, os humanos foram feridos três vezes e as feridas atingiram o nosso narcisismo, isto é, a bela imagem que possuíamos de nós mesmos como seres conscientes racionais e com a qual, durante séculos estivemos encantados". Que feridas foram essas?

"A primeira foi a que nos infligiu COPÉRNICO ao provar que a terra não estava no centro do universo, e que os homens não eram o centro do mundo. A segunda foi causada por DARWIN, ao provar que os homens descendem de um primata, que são apenas um elo na evolução das espécies e não ‘seres especiais’ criados por Deus para dominar a natureza. A terceira foi causada por FREUD com a psicanálise, ao mostrar que a consciência é a menor e a mais fraca parte de nossa vida psíquica"(CHAUÍ, 1995: p.166).

 

Em Cinco ensaios sobre a Psicanálise, FREUD assim escreve:

"A Psicanálise põe-se a mostrar que o eu não somente não é senhor na sua própria casa, mas também está reduzido a contentar-se com informações raras e fragmentadas daquilo que se passa fora da consciência, no restante da vida psíquica...A divisão do psíquico num psíquico consciente e num psíquico inconsciente constitui a premissa fundamental da psicanálise, sem a qual ela seria incapaz de compreender os processos patológicos, tão freqüentes quanto graves, da vida psíquica e fazê-los entrar no quadro da ciência... A psicanálise se recusa a considerar a consciência como constituindo a essência da vida psíquica, mas nela vê apenas uma qualidade desta, podendo coexistir com outras qualidades e até mesmo faltar" (CHAUÍ, 1995: p.166).
 

Assim sendo, acreditar no inconsciente não como lugar da verdade, mas como algo que fala da verdade do sujeito é essencial para a Psicanálise.

Perguntado por estudantes de filosofia como a psicanálise "podia fazer alguém sair da consciência", LACAN respondeu-lhes com uma piada: esfolando-o. Esse fato pode servir de advertência a toda concepção que pretende ver no inconsciente uma zona de sombra, de opacidade muda, como um baú sem fundo, como um santuário de onde o sujeito verdadeiro, encerrado na prisão da interioridade, obteria salvação. Em oposição a essa concepção algo romântica do inconsciente, LACAN construiu um inconsciente sem profundidade.

Fala-se em sujeito do inconsciente. LACAN é que se vê na obrigação de reconhecer que não existe mais ciência do homem, pois o homem da ciência desapareceu, com a multiplicação das ciências humanas e com o fato original de serem irredutíveis ás ciências naturais ¾ só restando seu sujeito.

A crise da filosofia do sujeito consciente poderia ser entendida por uma dupla ausência: a falta de objeto e o sujeito como falta.

A necessidade dessa nova teoria do sujeito como sujeito do inconsciente se impôs por diversas razões. Segundo SERGE COTTET, juntar esses dois termos, sujeito e inconsciente, parece menos legítimo quando se coloca em perspectiva a origem filosófica do conceito de sujeito identificado pela tradição clássica ao sujeito da consciência. Então o "o sujeito pensante", pilar do idealismo filosófico, não podia senão ser desalojado de seu lugar no edifício filosófico pela incidência do inconsciente.

Mas a psicanálise não é filosofia. Cabe à psicanálise e não à filosofia elaborar uma teoria do sujeito adequada à experiência freudiana, que demonstra que "o eu não é senhor em sua própria casa".

Retomando HILTON JAPIASSÚ,

"o conceito de ‘homem’ designa apenas um intervalo, o que está ‘entre’ a filosofia e a ciência, entre o empírico e o transcendental. Serve apenas para designar os buracos, as lacunas ou os intervalos dos discursos, vale dizer, aquilo que a psicanálise considera como seu sujeito. E aqui não se sabe mais quem fala: o homem ou o sujeito?" (JAPIASSÚ, 1982: p.221).

 

Mas afinal, o que é o homem e o que é o sujeito? Sabemos que sujeito é aquele que fala, não podendo mais ser concebido como uma entidade única titular de uma essência, mas como o objeto de uma divisão que o constitui: entre o inconsciente que o determina antes de qualquer discurso e as produções conscientes de que faz parte a idéia de homem. A noção do homem, pelo contrário, é relativa a determinada cultura e determinado método. Dessa forma, enquanto endereçado à produção de linguagem, o sujeito é termo lógico, universal e universalizável.

A Psicanálise, em relação às ciências humanas em geral, situa-se como uma contra-ciência. Diz-se que a psicanálise vem justamente no campo epistemológico fazer surgir uma atitude intelectual metódica e uma prática do saber que ultrapassam, de fato, os cânones clássicos da cientificidade, sem por isso perder seu estatuto de racionalidade.

O pensamento contemporâneo faz surgir uma nova paisagem intelectual. As ciências humanas convertem-se em ideologias, só sendo cientificamente válido "o que funciona". O utilitarismo do conhecimento torna-se regra principal para a constituição de uma ciência. Trata-se, no fundo, do que FOUCAULT chama de a "consciência desperta e inquieta do saber moderno". Os conceitos de sujeito, de consciência, de praxis, foram substituídos pelos conceitos de sistema, teoria e de estrutura.

O solo em que estava o homem torna-se abalado: nele fundava seus sonhos de dominar seus comportamentos, sua confiança em si mesmo. Mas este homem não se reconhece no espelho que lhe devolve a cientificidade e a dúvida paira no ar: "não é mais ele quem fala?".

Se o homem se sente de uma hora para outra, diz JAPIASSÚ, deposto do domínio que possuía de si, se passa a ser um estrangeiro em sua própria casa, como nos lembra FREUD, é porque um hóspede, a ciência, até então contentando-se em residir fora da morada humana, resolve penetrar em seu interior...

Aqui fica colocada a questão: as ciências humanas são ciências ou isso não passa de uma ilusão? Tudo indica que em nossos dias sua pretensa cientificidade é proporcional à sua desumanidade: quanto mais científicas se tornam, menos humanas se revelam. E na medida em que se tornam humanas, perdem seu caráter científico. " Toda a desgraça das ciências humanas reside no fato de terem que lidar com objeto que fala" ¾ e aí está o "x" do problema (JAPIASSÚ, 1977: p.9).

Um objeto que fala... É nesse banho de linguagem que é tudo menos indiferenciado, que vai ser mergulhado o pequeno ser humano, e ele terá de subjetivar, isto é, fazer uma história para se achar aí, se reencontrar aí. "Isso fala dele" de muitas maneiras. Esse lugar onde se inscreve o "tesouro da língua" que se dirige o sujeito é o que LACAN vai denominar lugar do outro. Mais do que fazer laço social, a linguagem tem a função de identificar o sujeito ¾ e esse efeito de identificação é que lhe permitirá incluir-se na ordem simbólica.

Descobre-se que a linguagem dissimula tanto quanto revela. O que ela diz na aparência, não é o que diz na realidade. Diante do dilema, os nostálgicos do humanismo querem a todo custo restituir o sentido da palavra do homem ¾ numa tentativa hermenêutica.

Posto que a Psicanálise não é uma hermenêutica, o que vai interessar é o que não faz sentido, aquilo que manca, que claudica, que aparece como enigma para o sujeito. Dessa forma, a psicanálise faz surgir o CHE VUOI, a formulação de perguntas, pois seu efeito é de suspender as respostas.

O tema desse trabalho nos coloca diante de duas perguntas cruciais:

Enquanto a filosofia é fundada na noção de objeto adequado, de objeto esperado antecipadamente em nome de uma harmonia, de um ideal, a Psicanálise se funda na teoria de falta ¾ falta radical de objeto.

A partir da Psicanálise, numa inovação sem precedentes na história do pensamento humano, há uma ruptura radical entre o objeto do desejo e o objeto do conhecimento. O objeto é por estrutura, perdido.

O que vem a ser radical de objeto? Uma falta incide sobre o significante, sobre o fato de que o sujeito que fala nunca se encontrará falando. Isso aponta para a falta-a-ser do sujeito, de um significante que diga o que ele é. É preciso firmar ainda que "tudo que existe não vive senão na falta-a-ser".

O falo, de modo algum o sujeito poderia sê-lo ou tê-lo, somente diz FREUD, sob a forma de castração. Não sendo um objeto nem bom nem mau, nem parcial, o falo é um significante, nisso que condiciona sob sua presença os efeitos de significado.

A outra falta nos aponta para o conceito de pulsão, fundamental na teoria psicanalística. Situada entre o psíquico e o somático, a pulsão tem a característica de buscar constantemente a satisfação. LACAN assim a descreve: "a pulsão não tem dia nem noite, nem primavera nem outono, nem subida nem descida. Ela está ali sempre, não podemos fugir dela. A pulsão é uma força constante" (LACAN, 1990: p.157).

No texto Três ensaios sobre a sexualidade, FREUD nos aponta para a primazia do falo como referência simbólica ¾ ou seja, o falo como significante da lei. Dessa forma, o falo simbólico significa e lembra que todo desejo do homem é um desejo tão insatisfeito quanto o hipotético desejo incestuoso a que o ser humano teve um dia que renunciar. Por essa renúncia, paga-se um preço, o da insatisfação do desejo ou, em outras palavras, a satisfação está sempre fadada a ser insuficiente. E é somente porque há uma falta, uma insatisfação permanente, que o homem põe-se a desejar.

Dizíamos que a pulsão está a toda hora buscando a satisfação, das formas mais variadas possíveis, mas o que a move é o que resta dessa operação: uma insatisfação que leva o sujeito em busca de outra coisa, em outro lugar. Assim, é que diz LACAN, "toda forma, para o homem, de encontrar o objeto é a continuação de uma tendência onde se trata de um objeto perdido, e de um objeto a se reencontrar" (LACAN, 1995: p.13).

Diz-se que o objeto é apreendido pela via de uma busca do objeto perdido. Existe uma nostalgia que liga o sujeito ao objeto perdido, através da qual exerce todo o esforço da busca. "A procura desse objeto perdido vai gerar uma tensão no sujeito porque trata-se de uma impossibilidade: o que é encontrado é apreendido noutra parte que não no ponto onde se o procura" (LACAN, 1995: p.13).

Por essa razão, LACAN recorre a DESCARTES, filósofo que dificilmente pode ser tido como precursor da Psicanálise. O cogito cartesiano "penso, logo existo" aqui se subverte em "penso onde não sou, sou onde não penso". Isso porque o sujeito não sabe os pensamentos que o determinam ¾ está aí o exemplo dos lapsos ou sonhos para verificá-lo ¾ assim como os sintomas e a inibição, sinais claros de uma inadequação do sujeito a si mesmo. O fato do ser do sujeito seja partido ao meio, nos leva a uma definição de sujeito barrado ¾ $ ¾ na qualidade de efeito de linguagem e produção significante.

O ser e o pensamento são conjugados na filosofia e essa coincidência entre um e outro é que dão a certeza ao filósofo. Para a Psicanálise ser e pensamento são uma antinomia.

Não há clínica sem ética da falta, que vai para além do suposto bem- estar, pois se não existe um objetivo claro a ser buscado no tratamento analítico é clara a intenção freudiana "que nunca é de conformidade às normas sociais e morais, mais sempre a confrontação do sujeito com a verdade do seu desejo".

Nesse sentido, o conceito de objeto mostra a sua importância ocupando assim lugar central na Psicanálise, devido a sua implicação na clínica, posto que a entrada em análise, a direção da cura, e o final de análise, giram em torno da questão do objeto.

A lógica do fantasma faz surgir um objeto novo, o objeto a, dito causa do desejo, que é ao mesmo tempo causa dessa divisão e a tampa que se oferece para tapar a brecha aberta pelo significante.

Mais do que a impossibilidade de conceituar o objeto petit a posto que esse objeto ocupa um lugar vazio, de pura falta ¾ há de se repensar a quê esse objeto nos remete. Esse objeto só tem esse estatuto de vazio quando ligado à causação do sujeito, causa essa de divisão de um que fala mas não sabe o que quer dizer com o que diz...

Na Psicanálise o sujeito se situa em função do desejo, em relação à pergunta cartesiana "que sou" e sua resposta "uma coisa pensante" ¾ há a lacaniana "que sou no desejo do outro" e a resposta no real: o objeto a (MILLER, 1989: p.23).

A posição do sujeito frente ao outro completa assim o circuito da pulsão que bordeja o objeto e retoma ao próprio sujeito. "Este objeto só pode ser contornado, impossível de ser representado, inapreensível".

Falar da ética na Psicanálise indica falar do fantasma e da questão do objeto. Fantasma comparado ao trabalho do oleiro que constrói seu vaso em torno de um vazio ¾ e o que aparece nesse mais além é o que o analista se propõe em uma análise.

Em A Fórmula do Fantasma?, escrito de MARIE HÉLÈNE BROUSSE encontro:

"o objeto em questão no fantasma não é o objeto pelo qual meu coração suspira, mas o objeto que está na base da própria capacidade de desejar do sujeito do inconsciente. Enquanto os objetos de desejo são infinitos, os objetos causas do desejo se constituem como finitos, como chave de acesso de um sujeito a seu desejo. Nesse sentido, o desejo se elucida pelo que o causa, e não pelo o que pretende satisfazer" (MILLER, 1989: p.87).

 

Na análise haveria o que chamamos de "construção da fantasia". Os fantasmas se opõem aos sonhos: para quem se entrega aos seus fantasmas ¾ estes conhecidos e familiares ¾ chegam a provocar vergonha por serem destoantes de seus próprios valores. É o que menos o sujeito fala e ao mesmo tempo revela a sua posição no mundo, por lhe apresentar seus mais próximos desejos. É dessa forma que FREUD e LACAN falarão de fantasma fundamental.

"A partir da tese que exige que o inconsciente seja estruturado como uma linguagem, a característica intransponível do fantasma será de ligar ao sujeito do inconsciente um objeto que lhe é fundamentalmente estranho, no sentido em que não é significante; o sujeito não está ligado ao objeto por nenhuma relação natural nem por intermédio de nenhuma necessidade". O fantasma então amarra essas duas coisas bem diferentes que são a satisfação de uma zona erógena com a representação de um desejo (MILLER, 1989: p.82).

Para concluir, podemos afirmar que não há sujeito sem fantasma, e este permite ao sujeito pensar que escapa à supremacia do significante.

O fantasma, poderíamos chamá-lo de "tecido" que vem dar um pouco de seu ser ao sujeito a partir dessa coleta de objeto efetuada sobre seu próprio corpo, quando da inscrição na ordem simbólica: "esse objeto não pode retornar ao sujeito senão à partir do seu advento significante mas não é alcançado senão no fantasma" (MILLER, 1989: p.85).

A fórmula do fantasma $ ² a apresenta-nos portanto o objeto que causa o desejo de um sujeito e limita seu gozo.

O fantasma não está submetido a leis da interpretação. Não é interpretável. O fantasma fornece de fato ao analista a chave do "lugar que ele ocupa para o sujeito" ¾ lugar do real.

 ABSTRACT

The theory of unconscious such as proposed by Lacan as an "analytical speech" flows to a theory of "unconscious desire". The present work focuses the unconsciousness as a psychoanalysis object in a conception that means a disruption with the "subject of consciousness" of the Classic Philosophy.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1995. p.166.
JAPIASSÚ, Hilton. Introdução à epistemologia da psicologia. Rio de Janeiro: Imago, 1977. p.9.35
________________. Nascimento e morte das ciências humanas. 2.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982 p.221.
LACAN, Jacques. O seminário livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 4.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. p.157.
_______________. O seminário livro 4 - A relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. p.13.
MILLER, Gérard (organizador). LACAN - O campo freudiano no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989. p.23,82,85,87. 


Trabalho apresentado na IX Semana de Filosofia 1995 - UFMA